As estações que viraram negócio: o modelo canadense de agroturismo
No Canadá os turistas podem visitar vinícolas e degustar os produtos in loco, uma experiência única e inesquecível. Crédito: Global Tourisme O Canadá tra...
No Canadá os turistas podem visitar vinícolas e degustar os produtos in loco, uma experiência única e inesquecível. Crédito: Global Tourisme O Canadá transformou o agroturismo em um dos pilares de sua oferta turística, combinando educação, sustentabilidade e valorização dos pequenos produtores em experiências que acompanham o ritmo das estações do ano. Em diferentes províncias, os visitantes podem colher maçãs e frutas vermelhas diretamente dos pomares, explorar fazendas de lavanda e de flores, participar da produção de queijos artesanais e do tradicional xarope de bordo (maple syrup), visitar vinícolas e fazendas orgânicas, além de vivenciar colheitas sazonais, festivais rurais e atividades com animais. Essas são apenas algumas das atividades que integram o conceito de farm experience, um modelo de turismo que fortalece as comunidades locais, aproxima os viajantes da cultura agrícola canadense e transforma o campo em um destino tão atraente quanto suas paisagens naturais e grandes centros urbanos. O setor já é tratado como política pública: gerou cerca de US$ 461 milhões em 2024 só no país, com previsão de mais do que dobrar até 2030. Fazendas de plantação de lavanda estão entre as propriedades que abrem as portas aos visitantes anualmente. Crédito: Global Tourisme O tempo dos açúcares Poucos rituais de viagem resumem tão bem a identidade de um lugar quanto Le Temps des Sucres (o tempo dos açúcares). Entre fevereiro e maio, as chamadas cabanes à sucre (cabanas de bordo) abrem suas portas para receber famílias em busca de refeições típicas, passeios de trenó puxado a cavalo, música tradicional ao vivo e o momento mais esperado da temporada: a tire sur la neige, o xarope de bordo quente despejado sobre a neve fresca, que endurece na hora e é enrolada num graveto como um doce. Quebec é hoje responsável por cerca de 72% da produção mundial de xarope de bordo, com uma safra de 225 milhões de libras em 2025, uma cadeia que sustenta 13,5 mil produtores e cerca de 12,5 mil empregos adicionais. A tire sur la neige, quando o xarope de bordo quente é despejado sobre a neve fresca, é uma das atrações da temporada dos açúcares no Quebec. Crédito: Bas-Saint-Laurent © GouvQc Joan Sullivan Além da província do Quebec, a experiência do Le Temps des Sucres também está presente em partes de Ontário, Nova Brunswick e Nova Scotia. O período ocorre entre o fim de fevereiro e abril, quando o degelo faz a seiva das árvores de bordo (sugar maple) fluir, dando início à produção do maple syrup. Regiões Vinícolas Enquanto Quebec apostava no bordo, a região de Niagara-on-the-Lake, em Ontário, e a do Okanagan Valley, na Colúmbia Britânica, conquistaram o mercado local com vinhos de todos os tipos. O Icewine, feito em Niagara, é um vinho produzido a partir de uvas colhidas já congeladas na videira, em plena madrugada de inverno. O que começou como um produto impulsionado pela vinícola pioneira Inniskillin, tornou-se uma plataforma turística: pacotes de hotel temáticos, jantares harmonizados e até spas com tratamentos inspirados no vinho. O Niagara Icewine Festival é hoje um dos eventos mais aguardados do inverno canadense. A Icewine Village toma conta da histórica Queen Street nos fins de semana de janeiro, com degustações gratuitas, esculturas de gelo, música ao vivo e o badalado Cool As Ice Gala na Power Station de Niagara Falls. A região movimenta cerca de 2,1 milhões de visitas anuais ligadas ao enoturismo e responde por mais de 90% da produção de uva de Ontário, enquanto o Okanagan Valley, na British Columbia, atrai a maior parte de cerca de 1 milhão de visitantes ligados ao vinho na província. No inverno canadense as uvas congeladas se transformam em Icewine, um dos produtos mais famosos de Ontário. Crédito: Freepik Já no Okanagan Valley, uma das raras regiões com clima seco e desértico, as safras são consumidas quase que em sua totalidade pelos locais. As variedades mais consumidas são Pinot Blanc, Pinot Noir, Riesling e Cabernet Franc. Em escala nacional, a cadeia do vinho e da uva gera C$ 10,1 bilhões por ano à economia canadense e mais da metade desse valor vem justamente do turismo, da hospedagem e do transporte ao redor das vinícolas. Frutas colhidas no campo Durante o verão canadense, entre junho e agosto, turistas e moradores trocam os roteiros urbanos por uma experiência típica do campo: a colheita de frutas no sistema U-pick (você mesmo colhe). Em fazendas espalhadas principalmente por Ontário, Quebec e Colúmbia Britânica, os visitantes recebem um balde ou cesta e percorrem os pomares para colher morangos, mirtilos, framboesas e outras frutas diretamente das plantas, pagando apenas pelo que levam para casa. A atividade, que une lazer, gastronomia e contato com a natureza, tornou-se um dos símbolos do agroturismo canadense. Os principais destinos incluem a região de Niagara, Prince Edward County, Muskoka e os arredores de Toronto, em Ontário; Montérégie, Estrie (Eastern Townships) e Laurentides, em Quebec; além do Fraser Valley, próximo a Vancouver, na Colúmbia Britânica, uma das maiores áreas produtoras de mirtilos da América do Norte. Muitas propriedades complementam a visita com mercados de produtos artesanais, cafeterias rurais, piqueniques, degustações e passeios pela fazenda. Os visitantes percorrem os pomares e colhem as frutas diretamente do pé, pagando apenas pelo que levam para casa. Crédito: Global Tourisme O colorido das plantações Com a chegada do outono, entre setembro e o fim de outubro, o interior do Canadá ganha um colorido especial e transforma plantações de milho e abóboras em algumas das atrações rurais mais procuradas da estação. Os tradicionais corn mazes (labirintos de milho) convidam visitantes a percorrer quilômetros de corredores abertos em enormes plantações, muitas vezes desenhados com formatos temáticos vistos do alto. A experiência é especialmente popular em Ontário, nas regiões próximas a Toronto, Niagara e Hamilton; na Colúmbia Britânica, no Fraser Valley, próximo a Vancouver; além de propriedades em Quebec e Alberta, onde fazendas familiares recebem milhares de visitantes durante a temporada. Muitas propriedades espalhadas por diferentes regiões do Canadá recebem visitantes em suas plantações de milho. Crédito: Allan Batt/Pixabay Os passeios costumam incluir também os pumpkin patches, campos onde adultos e crianças percorrem as plantações para escolher e colher a própria abóbora, tradição ligada às celebrações do Dia de Ação de Graças canadense e do Halloween. Muitas fazendas complementam a programação com passeios de trator, mercados de produtos artesanais, gastronomia típica, fogueiras, apresentações musicais e atividades para crianças, transformando a visita em uma imersão na cultura rural. Gastronomia de terroir A gastronomia de terroir é um conceito que valoriza alimentos e bebidas produzidos em uma determinada região, cuja qualidade e identidade refletem as características do ambiente local como clima, solo, relevo, vegetação e tradições culturais. O terroir representa a relação entre a natureza e o saber-fazer das comunidades que cultivam, criam e transformam esses produtos ao longo das gerações. No Canadá, as cidrarias artesanais são um dos destaques do outono, quando os pomares de maçã estão carregados de frutos. As principais rotas ficam em Ontário, nas regiões de Niagara, Prince Edward County e Blue Mountain, além do Vale de Okanagan, na Colúmbia Britânica, e da Montérégie, em Quebec. Muitas propriedades permitem que os visitantes caminhem entre os pomares, acompanhem parte do processo de produção da cidra, participem de degustações guiadas e harmonizações gastronômicas, além de aproveitar restaurantes rurais e lojas com produtos locais. As farm breweries (cervejarias agrícolas) valorizam ingredientes cultivados na própria fazenda, como cevada, lúpulo e ervas aromáticas. A experiência é popular em Ontário, Quebec, Colúmbia Britânica e Nova Escócia, onde muitas cervejarias funcionam em antigas propriedades rurais cercadas por plantações. Além das visitas às áreas de cultivo e às instalações de produção, os turistas encontram salas de degustação, festivais sazonais, música ao vivo, food trucks e menus elaborados com ingredientes produzidos na região. As cervejarias agrícolas valorizam produtos cultivados na fazenda e oferecem ao visitante diversos produtos para degustação. Crédito: Global Tourisme As queijarias artesanais oferecem experiências que aproximam o público da tradição leiteira canadense. A província de Quebec concentra algumas das mais conhecidas, especialmente nas regiões de Charlevoix, Estrie, Centre-du-Québec e Chaudière-Appalaches, enquanto Ontário, Ilha do Príncipe Eduardo e Nova Escócia também abrigam importantes produtores. Muitas propriedades recebem visitantes para acompanhar o processo de fabricação dos queijos, conhecer os rebanhos, visitar salas de maturação e participar de degustações harmonizadas com vinhos, cidras ou maple syrup. Vivenciar a rotina no campo As farm stays, ou hospedagens em fazendas, vêm conquistando espaço entre os viajantes que desejam conhecer o Canadá além dos grandes centros urbanos. Nessa modalidade de agroturismo, o visitante se hospeda em propriedades rurais em atividade e acompanha de perto a rotina do campo, participando de tarefas como alimentar animais, coletar ovos, cuidar de hortas, caminhar por pomares e conhecer práticas de agricultura sustentável. As experiências estão distribuídas por diversas províncias, com destaque para Ontário, Quebec, Colúmbia Britânica, Alberta, Ilha do Príncipe Eduardo e Nova Escócia, onde pequenas propriedades familiares abriram suas portas ao turismo sem perder a essência da produção agrícola. Na modalidade farm stay o visitante se hospeda em propriedades rurais e acompanha de perto a rotina no campo. Crédito: Montérégie © GouvQc Tourisme Montérégie Embora funcionem durante todo o ano, as atividades variam conforme as estações: no verão, predominam as colheitas de frutas, trilhas e refeições ao ar livre; no outono, ganham destaque as plantações de abóboras, os labirintos de milho e as festas da colheita; na primavera, a temporada do maple syrup movimenta as fazendas produtoras; e, no inverno, algumas propriedades oferecem passeios de trenó, caminhadas na neve e culinária típica junto à lareira. Além da hospedagem, muitas farm stays incluem café da manhã com produtos frescos da fazenda, oficinas de produção de queijos, pães e geleias, degustações e atividades voltadas para famílias. Turismo que também é sala de aula O segmento que mais cresce dentro do agroturismo canadense é o educacional. Fazendas recebem escolas e famílias para mostrar de perto o ciclo do alimento, o bem-estar animal e práticas de conservação do solo. O turismo educacional transforma fazendas, vinícolas, pomares, queijarias e cabanas de bordo em verdadeiras salas de aula ao ar livre. Ao longo do ano, propriedades rurais recebem famílias, estudantes e turistas para vivências que explicam desde o cultivo de frutas e hortaliças até a criação de animais, a produção de queijos, cidras, cervejas artesanais e maple syrup. Em vez de apenas observar, os visitantes participam de colheitas, degustações, oficinas e demonstrações práticas, conhecendo de perto técnicas agrícolas, processos de produção e iniciativas voltadas à conservação ambiental e ao bem-estar animal. Essa proposta está presente em praticamente todas as províncias canadenses, com destaque para Ontário, Quebec, Colúmbia Britânica e Alberta. Por trás dessa experiência bem cuidada existem protocolos sanitários para venda direta na fazenda e normas específicas para hospedagem rural, sustentado por órgãos provinciais. No agroturismo educacional, um segmento em expansão no Canadá, fazendas recebem escolas e famílias para mostrar de perto o ciclo do alimento. Crédito: Global Tourisme Canadá e Brasil, destinos complementares O agroturismo vive um momento de expansão global. As projeções do setor apontam um salto de cerca de US$ 70 bilhões em 2025 para quase US$ 100 bilhões até 2030, puxado por viajantes em busca de experiências autênticas, roteiros gastronômicos de origem e contato direto com quem produz o alimento. Nesse cenário, Brasil e Canadá surgem como dois destinos complementares e cada vez mais interessados um no outro. As trocas técnicas entre os dois países existem e crescem ano a ano. O Canadá ensina o Brasil a transformar sazonalidade em roteiro, a padronizar a recepção e a segurança alimentar na fazenda, e a converter produtos de nicho, como o bordo, o Icewine, em símbolos turísticos nacionais, com apoio institucional de órgãos de turismo. Desenvolvida no Canadá na década de 1970 a partir do melhoramento genético da colza, a canola é uma das maiores invenções do agronegócio moderno e um dos pilares estratégicos da economia canadense. O país é o maior produtor e exportador mundial desse "ouro amarelo", movimentando dezenas de bilhões de dólares anualmente e gerando milhares de empregos nas amplas pradarias de Saskatchewan, Alberta e Manitoba. Sua criação revolucionou o mercado global de óleos vegetais, transformando uma planta de uso predominantemente industrial em uma commodity alimentar altamente rentável e valorizada internacionalmente. O sucesso da canola deve-se à sua enorme versatilidade de usos no mercado global. O principal deles é a extração do óleo de canola, amplamente consumido na culinária por ser considerado um dos mais saudáveis do mundo devido ao baixo teor de gorduras saturadas e alto teor de ômega-3. Além do consumo humano, o subproduto da prensagem das sementes gera o farelo de canola, um insumo rico em proteínas essencial para a alimentação de gado leiteiro e suínos. Mais recentemente, o óleo também se consolidou como uma matéria-prima fundamental para a produção de biocombustíveis e combustível renovável de aviação. O Brasil, por sua vez, tem para oferecer sua escala tropical inigualável, a diversidade de terroirs, do cerrado mineiro ao semiárido baiano, e uma nova geração de agtechs (empresas ou startups que desenvolvem soluções tecnológicas para o agronegócio) que já desperta interesse concreto de delegações canadenses. Quem leva A Air Canada é a única aérea que voa sem paradas entre o Brasil e o Canadá o ano todo. São voos diários entre São Paulo e Toronto, 4 vezes por semana. São Paulo - Montreal, com aumento de frequência para voos diários no inverno canadense. Recentemente a Air Canada começou a voar do Rio para Toronto, 3 vezes por semana, a partir de outubro até março, em um voo sazonal. É possível parar gratuitamente em Toronto ou Montreal, conectando todo o Canadá e mais de 50 aeroportos nos Estados Unidos, promovendo viagens para dois destinos, inclusive para Ásia e Europa. Quem vende Abreu CT Operadora Lusanova